O modelo de inovação que guiou a criação e a expansão de hubs ao longo dos últimos 15 anos está sendo colocado à prova. Para Paulo Emediato, head de Growth & Communications do inovabra, ecossistema de inovação do Bradesco, a transformação provocada pela inteligência artificial, as mudanças no mercado de corporate venture capital e o amadurecimento das áreas de inovação das grandes empresas exigem uma atualização do playbook tradicional.
“Eu não tenho convicção de que as mesmas fórmulas e os mesmos playbooks dos últimos 10, 15 anos são os que respondem aos desafios que a gente está atravessando agora”, disse ele, em entrevista ao Startups, durante o Rio Innovation Week.
O modelo tradicional, segundo ele, é relativamente conhecido: criar um ambiente de alta densidade, aproximar startups, grandes empresas, investidores e outros atores, promover desafios e estimular conexões. A fórmula ajudou a estruturar boa parte do ecossistema de inovação nas últimas duas décadas.
“Só que o mundo mudou muito. Pós-pandemia, você teve um ciclo de mudança, e com a IA isso foi impressionante”, destaca ele, que assumiu a posição no inovabra há apenas cinco meses, depois de ter passado dois anos à frente da área de Marketing e Ecossistema na Oxygea.
Para Paulo, a tecnologia não representa apenas mais uma vertical para os programas de inovação. Ela muda a forma como startups, fundos e grandes empresas operam. E, consequentemente, o que se espera de um ecossistema como o inovabra.
O hub já mantém pesquisas relacionadas à segurança de agentes de IA, incluindo mecanismos para evitar manipulação e injeção de prompts. A tecnologia também começa a entrar na agenda de desenvolvimento das startups.
Uma das iniciativas em avaliação é um programa de residência, em parceria com o CEIA, o Centro de Excelência em IA, de Goiás, para ajudar startups a aumentar a maturidade no uso da tecnologia.
A proposta, segundo o executivo, é ir além da simples adoção da tecnologia. “É para ajudar essas startups com maturidade na aplicação de IA, inclusive para entender se elas precisam de IA no produto, no core. Como é que pensa a governança, mais do que a aplicação?”, afirma.
A vertical de saúde também ganhou relevância no portfólio do inovabra. Segundo Paulo, o segmento apresentou uma concentração significativa entre as 44 startups que entraram no ecossistema no primeiro semestre. A ideia agora é avaliar se essa concentração pode ser transformada em uma oportunidade de atuação mais ampla na cadeia.
Os aprendizados com a Oxygea
A Oxygea, fundo de corporate venture capital (CVC) criado pela Braskem foi encerrado em fevereiro de 2025, cerca de dois anos após ter sido lançado. Ao comparar as duas experiências, Paulo destaca que a diferença de escala e complexidade é significativa.
Na Oxygea, havia uma estrutura mais enxuta, com seis pessoas, enquanto no inovabra o escopo é muito maior, envolvendo mais de 40 corporações, mais de 300 startups, dezenas de unidades de negócio do banco e diferentes frentes de atuação.
Ainda assim, alguns aprendizados da Oxygea são levados para o novo desafio, especialmente a necessidade de compreender melhor as dores dos empreendedores e das corporações antes de desenhar programas.
“Por exemplo, o cuidado que a gente teve de entender as dores dos founders para desenhar um programa founder focused é um aprendizado que a gente carrega para as próximas práticas. Da mesma forma, precisamos ter esse cuidado para entender os desafios e as teses de inovação das corporações dentro de um modelo de sustentação, de eficiência, de ROI e de comprovação de valor que faça mais sentido”, explica.
A dor do funding
A atualização do papel do inovabra também passa pela questão do acesso a capital, que, para Paulo, é uma “dor latente” do ecossistema. Na visão do executivo, a necessidade das startups não se resume apenas à captação com investidores. O acesso a clientes corporativos também é parte importante da equação.
“Uma startup precisa de dinheiro e precisa de capital de cliente. Precisa ajudar nas duas frentes”, diz.
É nesse ponto que o executivo enxerga uma possível evolução do papel dos hubs: menos como um espaço físico ou uma plataforma de conexão e mais como um articulador de diferentes interesses dentro do ecossistema.
A mudança, porém, não significa abandonar o que já funciona. O inovabra segue com seus programas, eventos e relacionamento com startups e corporações. Segundo Paulo, são cerca de 500 eventos por ano. “É um festival permanente”, brinca.
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