Os medicamentos à base de GLP-1 agonistas — especialmente semaglutida e tirzepatida — transformaram o tratamento da obesidade globalmente, com resultados documentados em redução de peso de 15% a 22%. No Brasil, porém, o acesso permanece concentrado em pacientes de renda alta, enquanto o Sistema Único de Saúde enfrenta limitações orçamentárias para incorporação em massa.
O custo é o principal obstáculo. Semaglutida (Ozempic/Wegovy) custa entre R$ 600 a R$ 1.200 por injeção mensal via setor privado — aproximadamente R$ 7.200 a R$ 14.400 anuais. Tirzepatida (Zepbound) situa-se em faixa similar. Para contexto, o salário mínimo brasileiro é de R$ 1.412 mensais (a partir de 2024). Pacientes do SUS enfrentam filas para acesso, com aprovação geralmente restrita a casos de obesidade severa (IMC acima de 40) associada a comorbidades.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (2019) mostram que 26,8% dos adultos brasileiros têm obesidade, com prevalência 30% maior entre os de renda mais baixa. Segundo análise do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), apenas 8% dos brasileiros com obesidade têm acesso a tratamentos farmacológicos especializados — concentrados nos segmentos de renda superior.
O SUS incorporou semaglutida em 2021 para diabetes tipo 2, mas a extensão para tratamento de obesidade permanece em avaliação pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec). Barreiras incluem custo estimado de R$ 2,3 bilhões anuais para atender a população elegível e falta de capacidade de produção local — a maioria dos suprimentos é importada.
Especialistas sugerem que políticas públicas devem equilibrar inovação com equidade: subsídios focados em população vulnerável, investimento em produção nacional e integração com programas de perda de peso estruturados. Sem intervenção, medicamentos emagrecedores podem aprofundar divisão entre segmentos de renda no acesso à saúde preventiva.