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Os adolescentes perdidos dos anos 80: Ryan Murphy transforma Ellis em séries perturbadora

Redação Recifes
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Os adolescentes perdidos dos anos 80: Ryan Murphy transforma Ellis em séries perturbadora

Ryan Murphy levou às telinhas a visão perturbadora de Bret Easton Ellis sobre a juventude dourada de Los Angeles. Sem vigilância parental sufocante, esses garotos e garotas da elite preparatória vivem numa realidade que parece saída de um pesadelo hedonista: festas regadas a bebidas caras, cocaína ao fundo, trilhas sonoras new wave tocando em loop. A série captura com precisão incômoda aquele espírito dos anos 80, quando ser jovem e rico significava liberdade absoluta para explorar todos os limites morais possíveis.

O elenco reúne novos nomes que trazem autenticidade ao projeto, entregando personagens que oscilam entre a sofisticação superficial e a vazio existencial. Cada adolescente carrega consigo uma versão particular do desespero mascarado de diversão: drogas recreativas transformadas em rituais de integração, relacionamentos baseados em transações emocionais, amizades sustentadas por segredos perigosos. A química entre os atores funciona justamente porque consegue transmitir aquela tensão característica do período Ellis, onde tudo pode desabar a qualquer momento.

O que torna a produção particularmente inquietante é sua disposição em não julgar explicitamente o comportamento desses personagens. Murphy permite que o espectador navegue pela perversidade cotidiana dessa bolha social, sugerindo que a verdadeira ameaça pode vir de lugares inesperados. Os elementos noir — assassinatos em série, mistérios não resolvidos — funcionam como contraponto ao vazio moral já prevalente nesses ambientes privilegiados.

A série consegue traduzir para a linguagem audiovisual aquilo que tornava os romances de Ellis tão perturbadores: não é apenas o conteúdo explícito, mas a desconexão emocional com que tudo é apresentado. Los Angeles brilha em tons de ouro e rosa, as mansões são templos do bom gosto, e mesmo assim há algo fundamentalmente podre pulsando sob essa fachada. É entretenimento que desconforta enquanto seduz, exatamente como propôs Ellis décadas atrás.

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Artigo originalmente publicado em www.theguardian.com
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